Efeito Estufa: Exemplo de inventário de gases gerados na Estação Antártica
As mudanças climáticas, fenômenos naturais que vem sendo intensificados devido ao aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE), tornaram-se tema indispensável nas negociações internacionais ligadas à sustentabilidade global, destacando-se a aprovação em 1997 do Protocolo de Quioto, que definiu objetivos quantificados para a redução das emissões de Gases de Efeito Estufa nos chamados países desenvolvidos. Mais recentemente, em 2010, foram estabelecidas metas de redução de emissões também para os denominados países emergentes, sendo estas em caráter voluntário.
O continente Antártico está localizado na região mais sensível às variações climáticas do planeta e é considerado um local onde é possível detectar antecipadamente as respostas do ambiente às mudanças climáticas globais.
Por esse motivo, em 1991 foi assinado o Protocolo de Proteção Ambiental do Tratado da Antártica, também conhecido como Protocolo de Madri, tendo como propósito assegurar a proteção do meio ambiente na Antártica, em todas as atividades humanas desenvolvidas no continente.
A elaboração de inventários é o primeiro passo para auxiliar na identificação das atividades mais importantes em termos de impactos gerados ao meio ambiente através das emissões antrópicas de GEE. Desta forma, através do Projeto de Implantação de Sistema de Gestão Ambiental na Estação Antártica Comandante Ferraz, foi organizado um programa de gestão específico de GEE, contribuindo dessa forma para promover a sustentabilidade do Programa Antártico Brasileiro.
Os dados foram coletados in loco no período de janeiro a março de 2011, quando a partir dos processos mapeados na Operação Antártica – OPERANTAR XXVII (fev, 201 O) foram identificadas as emissões atmosféricas e suas respectivas fontes, características e composições.
Para viabilizar o entendimento e quantificação das emissões de GEE decorrentes das atividades desenvolvidas na Estação utilizou-se a norma ISO 14.064-1/2007 e o The Greenhouse Gas Protocol, adotando-se os fatores de emissão do óleo diesel comum, referenciados pelo Programa Brasileiro GHG Protocol (2010). O mesmo Programa disponibiliza uma ferramenta para cálculo das emissões provenientes de combustão, que foi utilizada no presente estudo.
Foram contempladas as emissões de CO2, CH4 e N2O e como limites para a contabilização foram inclusas as fontes de emissões das atividades de rotina operacionalizadas pela Marinha do Brasil na Estação Antártica. Os processos analisados foram os seguintes: geração de energia pelos diesel geradores, aquecimento de água pela caldeira, operação das embarcações, viaturas e equipamentos para diversos fins, além da incineração de resíduos orgânicos e o tratamento de efluentes pela ETE. Também foram contempladas as emissões de fontes móveis e estacionárias.
Após a contabilização identificou-se que as principais emissões de GEE das atividades desenvolvidas provêm da geração de energia elétrica através dos diesel geradores, que junto com as caldeiras contabilizam mais de 97% das mesmas, somando mais de 938 toneladas de CO2 emitidos.
É possível identificar uma grande discrepância entre o total das emissões de cada gás contabilizado, onde o dióxido de carbono é apontado como o gás de efeito estufa mais abundante emitido pelas atividades realizadas na EACF, mesmo quando comparado aos outros GEE convertidos em C02e (C02 equivalente, uma medida padrão para comparação entre emissões de gases estufa).
O principal objetivo do desenvolvimento de um primeiro inventário de uma organização é identificar a representatividade das fontes de emissões, norteando assim o rumo do gerenciamento e auxiliando na determinação de metodologias para a realização dos inventários de emissões de gases de efeito estufa anuais.
Assim como o Programa Antártico Brasileiro procedeu em relação à EACF, as empresas devem realizar seus inventários de gases de efeito estufa. Deve-se considerar que todo resíduo sólido, efluente líquido ou emissão atmosférica gerada significa um desperdício e uma ineficiência associados aos processos de produção, sobretudo no que se refere à taxa de conversão de matérias-primas em produtos.
Seja pela pressão dos mercados ou pela redução de custos e desperdícios nos processos, no futuro próximo a busca pela eficiência energética das empresas e, por conseguinte, do inventário de gases de efeito estufa, deve se intensificar cada vez mais.
Alexandre de Avila Leripio e Gustavo Rohden Echelmeier
